LIVROS:

 

A MULHER NA JANELA:

Houve um período, por volta das décadas de 1950 a 1960, em que o suspense psicológico esteve em alta nos cinemas com produções que entraram para a história. O grande nome por trás da maioria desses filmes foi o de Alfred Hitchcock, um mestre na arte de contar e adaptar histórias. Vem dessa época obras como Psicose, Um Corpo que Cai, A Dama Oculta, entre outros. Todas originárias de livros, alguns não tão conhecidos do público brasileiro ou fora de catálogo a muitos anos. Esse estilo de contar histórias não acabou, mas é fato que o suspense psicológico perdeu muito espaço para tramas em que a figura de um detetive ou investigador protagoniza a história em sua busca pelo vilão da vez. A Mulher na Janela, lançamento da editora Arqueiro, vem, portanto, suprir essa carência com uma qualidade digna dos grandes clássicos que mencionei acima.

O ponto primordial em qualquer suspense psicológico de qualidade é sua capacidade de envolver e confundir o leitor. A obra precisa se assemelhar a um labirinto em que podemos tomar caminhos diversos, confusos e errados. Às vezes certezas são desfeitas no capítulo seguinte ou dúvidas ganham contornos maiores. O estreante A.J. Finn seguiu a receita e fez de A Mulher na Janela um livro viciante e impossível de largar. Narrada pela cativante protagonista Anna Fox, a obra é de uma leitura deliciosa e nos conduz por sua rotina diária: tomar conta da vida alheia. Presa em casa por conta de uma fobia a lugares abertos, Anna passa seus dias assistindo a filmes, bebendo e cuidando da vida dos vizinhos de forma obsessiva. Tudo isso narrado de forma ágil, com frases rápidas e descrições econômicas. Assim, o livro flui sem se arrastar em nenhum momento.

Ao traçar a rotina de vida, deixando claras as limitações de saúde e problemas com bebida da protagonista, o autor constrói o cenário para lançar a dúvida. Aquele mistério que vai perdurar até as sequencias finais sustentando duas perguntas: aconteceu algo? Se aconteceu, de quem é a culpa? Pronto. Temos em mãos uma das melhores histórias para começar o ano! A partir desse ponto cabe aos leitores a atenção necessária para ir desfazendo os nós e identificando o que pode ser verdade e o que não passa de ilusão. Existem vilões nesse livro ou tudo é apenas fruto de uma mente perturbada?

Para além dos mistérios, alguns inclusive fáceis de serem percebidos muito antes do fim, A Mulher na Janela é uma grande homenagem aos clássicos filmes de meados do século XX. Os capítulos são recheados de referências e citações a diálogos de algumas das principais obras de uma época áurea do cinema. O desenvolvimento da história acaba sendo tão bom que ficamos tentados a ir em busca de alguns títulos para assistir e fazer companhia para a protagonista (cheguei a me perguntar se determinados títulos citados serviriam de pistas para a solução do mistério, mas ainda não verifiquei). Essa aura cinematográfica acaba contaminando tão bem a obra que acho impossível aos leitores não imaginar claramente as cenas como se estivéssemos em um cinema nos tempos do preto e branco.

Os personagens secundários que dão suporte à trama cumprem à risca seu papel de “complicadores” do mistério. Todos com atitudes que mudam da confiança para a desconfiança em poucas páginas. No fundo, ninguém é o que parece e, por mais observadores que possamos ser, o desfecho passa bem longe do imaginado. Um desfecho bem clássico, sem furos e digno de comparação com as grandes obras do gênero.

Para os saudosistas de bons suspenses psicológicos, como eu, A Mulher na Janela é uma grata surpresa. A obra reúne todas as credenciais para ser um dos melhores lançamentos do ano, que está apenas começando heim! Sirva-se de um Merlot, acomode-se na poltrona e tenha excelentes papos com Anna Fox. E lembre-se, ela pode saber mais da sua vida do que você imagina!

Avaliação: 5 Estrelas

O Autor: A.J. Finn Formado em Oxford, A.J. Finn é ex-crítico literário e já escreveu para diversas publicações, incluindo Los Angeles Times, The Washington Post e The Times Literary Supplement. A Mulher Na Janela, seu primeiro romance, foi vendido para 36 países e está sendo adaptado para o cinema numa grande produção da 20th Century Fox. Natural de Nova York, Finn viveu por dez anos na Inglaterra antes de voltar para sua cidade natal, onde mora atualmente.

DRACUL:

O mito vampiresco é uma constante na cultura popular desde os séculos XVIII e XIX. Em paralelo aos antigos mitos folclóricos europeus que pintavam a criatura como monstruosa, observa-se uma produção literária, entre estes séculos, povoada por seres sobrenaturais envolventes, até mesmo sensuais, mas sempre aterrorizantes. Dentre os exemplos mais conhecidos, vêm à mente “The Vampyre”, de John Polidori (um dos frutos da conhecida aposta travada entre Lord Byron, Mary Shelley, Percy Shelley e o próprio Polidori), – que traz o arquétipo do vampiro masculino elegante e irresistível – e “Carmilla”, de Sheridan Le Fanu – abarcando, por sua vez, o arquétipo da vampira lésbica lasciva e sedutora contra jovens inocentes (sobre as mulheres na literatura vampírica, recomendo esse post excelente do Fright Like a Girl).

A síntese destes retratos mais “refinados”, somados à selvageria mais crua presente nos mitos antigos, é o clássico Drácula, de 1897. Mas como apresentá-lo a uma audiência vitoriana na era da ciência, do otimismo e do progresso?

Um dos maiores méritos da obra de Bram Stoker para a literatura de terror é seu estilo: recortes de jornal, relatos perdidos e páginas de diário compõem a tapeçaria narrativa da obra. A linguagem é direta para a época, com indivíduos comuns da sociedade britânica descrevendo os acontecimentos. O medo não apenas reside naquilo que é testemunhado, mas também no que é deixado para a imaginação, quando a razão cartesiana já não é capaz de explicar o que se desvela diante dos leitores. É fácil imaginar como o livro tenha aterrorizado tanta gente, se pararmos pra pensar que filmes de terror ou horror “baseados em fatos reais” fazem bastante sucesso até hoje. Sem falar nos famosos filmes “found footage”, cuja premissa de medo reside justamente num suposto realismo documental das imagens exibidas.

Além disso, o próprio Drácula se distancia, em muito, de suas caracterizações mais recentes que o humanizam, buscam justificar seus atos ou, no mínimo, colocá-lo como uma personagem ambígua e moralmente cinzenta. Na obra original, o vampiro é a própria personificação do mal, um monstro asqueroso cujas razões desprezíveis não deixam espaço à empatia.

Em Dracul, uma espécie de prequel dos acontecimentos de “Drácula”, os autores J.D. Barker e Dacre Stoker (este último o sobrinho-bisneto do próprio Bram Stoker) propõem-se não apenas a revisitar a narrativa original, como também incorporar a própria atmosfera misteriosa que cerca a publicação da mesma. Embasando-se em manuscritos e cenas suprimidas do romance de 1897, bem como das anotações do diário de Bram, e elevando alguns acontecimentos da vida do autor, os autores estreitam as fronteiras entre realidade e ficção, inserindo-o como protagonista de uma nova história, ainda que fiel aos cânones pré-estabelecidos pelo clássico que o antecedeu.

Confesso que iniciei a narrativa com o pé atrás: esta não é a primeira empreitada de Dacre Stoker no legado literário de sua família, tendo escrito uma continuação “oficial” de Drácula denominada “Drácula, The Un-Dead” em 2009, cuja recepção não foi lá das melhores. Decidi me arriscar com Dracul, contudo.

A história é contada em pontos temporais paralelos: o primeiro deles é em 1868, do ponto de vista em terceira pessoa de um jovem Bram Stoker montando vigília no quarto de uma construção antiga, armado de uma espingarda Smith & Wesson e de relíquias sagradas como água benta, crucifixos e rosas abençoadas, para impedir a entrada de uma criatura demoníaca no aposento. Durante a longa noite que se segue, o rapaz rememora todos os eventos que o levaram até aquele momento. Este é o segundo ponto de vista da narrativa: as entradas no diário de Stoker (em primeira pessoa), primeiramente sobre a infância em Clontarf, na Irlanda, quando era apenas uma criança moribunda padecendo de um mal desconhecido, até os anos mais recentes da juventude. Há, ainda, cartas escritas por sua irmã Matilda Stoker, além de anotações no diário do irmão mais velho, Thornley. Em todos, um denominador comum: a presença da misteriosa Ellen Crone, babá na casa dos Stoker durante a infância dos irmãos. Após um evento testemunhado por Bram e Matilda ainda pequenos, a figura de Ellen não cessa de abandonar seus pensamentos. De alguma forma, a antiga cuidadora da família está interligada ao monstro que Bram necessita eliminar no presente.

Aos 22 anos, Bram já não possui mais nenhum sinal da enfermidade que o acometera na infância, trabalhando em um cargo público administrativo, paralelamente ao ofício não-remunerado de crítico de teatro; Matilda segue com uma carreira artística bem-sucedida, tendo retornado de uma exposição de suas obras em Paris; e Thornley tornou-se um dos mais prestigiados médicos da região. Diversos eventos insólitos inter relacionados reúnem o trio, mesmo anos após o desaparecimento da babá, a fim de que descubram seu paradeiro.

Mencionei logo cedo que um dos maiores méritos da obra de 1897 é o estilo quase jornalístico com o qual os acontecimentos são relatados, junto a uma escrita epistolar acessível – isto é, a transcrição das cartas que os personagens enviam uns para os outros, além das entradas em seus respectivos diários. Aqui, em Dracul, é bastante perceptível o esforço dos autores em resgatar o estilo epistolar e incorporá-lo na nova trama, algo que já representa um mérito por si só; o livro anterior de Dacre (co-escrito com o autor Ian Holt), “O Morto-Vivo”, fora muito criticado justamente pelo desrespeito ao estilo pelo emprego de uma narração rápida, quase cinematográfica. Até certo ponto, é possível dizer que o autor se redime, muito por conta da qualidade narrativa de seu atual co-autor, J.D. Barker. Em certos pontos, contudo, a narrativa em forma de diários ou cartas nem sempre parece muito natural, especialmente no início, que me pareceu um pouco arrastado.

Ainda sobre estilo, algo que não me escapou aos olhos foi a incorporação de vocabulário, frases mais elaboradas e alguns tipos de expressões que me remontam à narração melodramática dos romances góticos do século XIX, atualizada a uma audiência mais moderna. Não lembro de ler muitas histórias lançadas recentemente que tenham resgatado estes pequenos detalhes, mesmo aquelas cuja ambientação antiga possibilitasse algo do tipo. É bastante interessante, e denota a preocupação com um trabalho de pesquisa reforçado e detalhado sobre o material de origem.

Embora Bram Stoker seja o protagonista, ele não é nem de longe a personagem mais interessante do romance. Seu ponto de vista não é tão cansativo de acompanhar (salvo no início), mas não se trata de uma personalidade de grandes atrativos, sendo até um pouco genérica. Thornley também entra pelo meio, embora ganhe alguns atrativos a mais, em função do apego, beirando a obsessão, para com sua esposa enferma (o que me lembra um pouco a relação entre Lucy e seus três pretendentes, especialmente o Dr. Seward, em “Drácula”) e suas ligações com o famoso Clube do Inferno, grupo secreto de intelectuais para estudos acerca do que a ciência de então não conseguia explicar.

Matilda Stoker chama a atenção pelo sarcasmo, altivez e pulso firme para com os irmãos – de certa forma, ela é tudo aquilo que Mina Murray (noiva de Jonathan Harker em “Drácula”) poderia ter sido mas não o foi, em função de sua submissão a Van Helsing; Matilda não tem medo de tomar as rédeas da missão quando os rumos da busca não a agradam, ou de chamar a atenção de Bram e Thornley quando ambos perdem a perspectiva (embora tenha me incomodado a quantidade de “gritinhos” que ela solta ao longo da trama, como se os autores se sentissem na necessidade de nos recordar de que Matilda ainda é uma “dama frágil”). A própria Ellen Crone é intrigante de maneira bastante convincente, e seu mistério se constrói de forma cuidadosamente intrincada na narrativa. A personagem mais ambígua do livro inteiro, contudo, sem dúvida é Arminius Vambéry, membro do Clube do Inferno e amigo próximo de Thornley (e possível inspiração do Bram Stoker da vida real para a personagem de Van Helsing), por ele convocado para auxiliar na missão, em função de seus mais variados contatos escusos na sociedade britânica; até a última página, não é fácil entender exatamente quais são suas intenções.

A grande figura maléfica da trama também é muito bem desenvolvida, e aqui devo ressaltar um ponto fundamental: comentei anteriormente que as representações mais recentes buscam relativizar ou humanizar a depravação vampiresca. Devo dizer que isso não acontece em Dracul. Os autores se mantiveram bastante fiéis ao retrato da criatura tal qual Bram Stoker a concebera em seu romance, não apenas quanto ao caráter bestial e deformado do monstro (mesmo as criaturas vampirescas mais humanizadas da trama possuem seus momentos de loucura sanguinária), como também quanto às próprias convenções instituídas em “Drácula”. Aqui, vampiras e vampiros são capazes de se dissolver no ar, transformar-se em animais, e inclusive andar sob a luz do sol (embora incapazes de usar seus poderes, sendo consideravelmente mais fracos que durante a noite). Não há nenhuma incoerência, e está tudo de acordo com o romance de 1897.

O desfecho é agridoce, coerente com as personagens, sem grandes malabarismos, e mostra as consequências de uma jornada empreendida tendo a paixão como mola propulsora. Este é outro ponto positivo que eu gostaria de destacar: Dracul também é uma história de amor, mas não o amor romântico sacralizado que encontramos nas mídias. Trata-se de um amor intenso e verdadeiro, na mesma medida em que é cruel, destrutivo e sem precedentes para todos os que estão por perto. É sempre muito interessante ler histórias em que o sentimento amoroso assume formas feias e compulsivas – e inclusive é reconhecido e demonstrado nas narrativas como tal – pois, na vida real, o amor pode se tornar exatamente isso.

Ao final do livro, há algumas páginas extras em que os autores revelam um pouco sobre o processo de recuperação dos manuscritos e documentos originais, além de detalhar a influência específica de duas obras do cânone de Drácula para a prequel: o conto “Dracula’s Guest” (capítulo inicial do livro original, cortado na edição final e recuperado recentemente, já estando disponível em algumas edições nacionais mais recentes), bem como “Makt Myrkranna” (tradução islandesa de Drácula, com diferenças consideráveis do original em relação a estilo narrativo, com adição de alguns novos personagens. Sua edição brasileira será lançada em breve e inclusive já teve post por aqui sobre), ambos redescobertos em meados dos anos 1980. Tanto o conto como a tradução possuem base em escritos do próprio Bram Stoker, gerando diversas especulações quanto à mensagem que o autor desejava passar com a obra. Personagens como a Condessa Dolingen von Gratz (presente em “Dracul”) possuem suas primeiras aparições nestes originais, e é muito intrigante a atmosfera de mistério que os autores colocam em torno dos documentos recuperados.

No geral, “Dracul” se revela uma prequel bastante competente ao legado deixado por “Drácula”. Embora a narrativa possa se arrastar e cansar em alguns momentos, o trabalho dos autores compõe uma trama envolvente na qual as fronteiras entre ficção e realidade nem sempre são determináveis, fiel ao lore e à mitologia construída há mais de 120 anos, além de trazer uma mensagem surpreendentemente realista acerca das consequências de uma jura de amor verdadeiro levada a seu mais sangrento extremo.

DRACULA O MORTO-VIVO:

Passeando por uma livraria, sem qualquer intenção de realmente comprar alguma coisa, percebi que havia perto de mim um livro de capa preta com letras garrafais vermelhas na capa. Drácula o Morto-Vivo. O título imediatamente me pareceu tão interessante quanto um pesadelo. Revisitar, reescrever ou refazer a história original de Bram Stoker aparentava ser um pecado. Além disso provavelmente era um livro encomendado, escrito por algum escritor-fantasma a pedido de editores. Mas as letras brancas na parte de baixo da capa, que estampava um morcego sob uma luz fraca, diziam: A sequencia do clássico de Bram Stoker. Era o que eu temia! Talvez fosse até pior do que o Sherlock Holmes que se vê arrastado por diferentes escritores atuais, como se roubado de Conan Doyle. Um nome acima do título me fez recuar perplexo: um dos autores era Dacre Stoker. Pensei se seria realmente um descendente de Bram Stoker, o irlandês que escrevera o clássico no século XIX. Foi quase um alívio ler que Dacre é sobrinho-bisneto de Bram. Isso tornaria a obra menos forçada – para mim -, como se os personagens pudessem ter sido herdados.

Drácula o Morto-Vivo é na verdade uma tentativa de redenção. Tanto da família Stoker quanto do personagem título. A história se passa vinte e cinco anos após o livro original. Com esse tempo, os personagens puderam ser moldados com mais facilidade pelos autores, Dacre Stoker e Ian Holt, o que dava a eles mais liberdade na escrita.

A história começa com uma carta de Mina Harker ao filho, Quincey Harker, explicando – e resumindo – os acontecimentos em Drácula. Após isso acompanhamos o Dr. Jack Seward, que se tornara um caçador de vampiros viciado em morfina. Ele está engajado em caçar uma vampira nobre na Espanha: Elizabeth Bathory. Essa condessa é uma referência à verdadeira condessa húngara Bathory, cujo nome entrou para a história por ter tomado banhos no sangue de camponesas acreditando ser esse o elixir da juventude. A personagem do livro não é diferente e as descrições de seus atos, pareadas aos relatos de seu homossexualismo explícito, torna-a mais próxima do conceito de vampiro entregue aos prazeres carnais. Ao mesmo tempo vemos a situação de Quincey Harker, estudante de direito na França mas infeliz com a profissão. Ele sonha ser ator, apesar da desaprovação do pai. Jonathan Harker é um velho, gordo, alcoólatra e desiludido advogado. Ele busca afogar suas mágoas em álcool, brigas e mulheres. Harker não suporta o fato de ter sido traído por Mina, que até então parece nutrir sentimentos ambíguos por Drácula, chamando-o durante sonhos. Wilhellmina não envelhecera nos vinte e cinco anos, fato que assusta o marido lembrando-o constantemente de como Drácula interferiu em suas vidas. Já Arthur Holmwood se tornou recluso, tendo engajado em um casamento por motivos políticos. Ele se arrepende amargamente da morte de Lucy e culpa o professor Van Helsing pelo que aconteceu. O professor, por sua vez, está com a saude frágil, mas isso não o impediu de ter feito de Seward seu aprendiz nas artes ocultistas.

A partir desse cenário, temos o estranho assassinato de Seward, o que leva o grupo de antigos amigos a duvidar da morte de Drácula na Transilvânia. Adicionaram-se ainda outros personagens a essa atmosfera de medo. O inspetor Cotford, que trabalhara no caso de Jack Estripador, acredita ter sido Van Helsing o assassino em série. Há ainda Basarab, um ator romeno que nutre pelo príncipe Drácula grande admiração. Com o passar da história os autores conseguem fazer com que mudemos de opinião sobre o fim do livro de Stoker. Às vezes vemos pela narração, em terceira pessoa, que é impossível ao vampiro ter sobrevivido. No capítulo seguinte, porém, passamos a crer assim como os personagens, que ele não poderia estar morto e assim por diante. As peças do quebra-cabeças só mostram no final o que realmente aconteceu, quando vemos quem estava errado e quem estava certo, quem estava aliado a quem e quem não é aliado de ninguém.

Hum... Essa história está meio diferente de como eu me lembrava...
Hum… Essa história está meio diferente de como eu me lembrava…

A forma como a trama é conduzida, explicando o passado dos personagens, seus medos mais profundos e seus raciocínios, é excelente. Em alguns momentos acompanhamos Cotford, após ter descoberto o diário de Jack Seward, em sua investigação sobre Van Helsing e sobre o grupo de amigos. Em outros momentos acompanhamos o próprio Bram Stoker, feito em personagem, que escrevera um livro chamado Drácula a partir de uma história que ouviu de um homem em um pub em troca de bebida. O livro aborda ainda muitas das lendas sobre vampiros que foram criadas pelo cinema. Nenhuma delas sobre eles brilharem.

Vários dos personagens e eventos são históricos ou baseados em fatos e pessoas. Exemplo é a quantidade de nomes em homenagem a atores que interpretaram Drácula no cinema e no Teatro, bem como os integrantes da família Stoker e uma referência no final ao Titanic. Todos as datas foram calculadas para coincidir com os avanços da ciência, a modernização da Inglaterra, os fatos e as pessoas que lá viveram. O livro é fruto de extensa pesquisa, embora para isso a dupla de autores teve de colocar o livro de Stoker baseado na história que ele ouviu, mas alterado em relação ao que conhecemos. Algumas datas do livro Drácula foram modificadas, bem como algumas referências comuns. Uma delas é a diferença no livro entre Conde e Príncipe Drácula. No romance de Stoker ele é um conde, mas o personagem histórico, Vlad Tepes III, foi um príncipe. Em Drácula o Morto-Vivo mostra-se que Stoker alterou as informações em seu livro, mas como se, na “vida real”, o conde fosse o príncipe.

O livro é engenhoso e os autores foram meticulosos na escolha dos personagens e na ambientação, porém peca em alguns momentos. A desconstrução dos personagens em alguns pontos é como uma facada nas costas, como se não fosse o mesmo personagem da trama vitoriana. Vemos os heróis, antes determinados e confiantes, com suas vidas pessoais e profissionais em ruínas. É de sentir pena. A ideia de um romance entre Drácula e Mina é explorada pois o romance de Stoker fora ambíguo quanto a essa possibilidade e aproveita essa oportunidade para questionar tanto os valores da época vitoriana como para denotar os traumas sexuais do casal Harker. No final do livro há ainda uma nota sobre a redenção dos Stoker, pois após perder os direitos autorais sobre a obra, devido a uma questão aparentemente burocrática, a família não tentou dar continuidade a obra ou algo assim. Dacre vê isso como uma questão de honra. É interessante também que Ian Holt, co-autor do livro, contribuiu para a pesquisa por trás do filme Bram Stoker’s Drácula (1992). Há ainda uma explicação dos autores sobre a possibilidade de vampiros serem pessoas que contraíram um “vírus-vampiro”, terem alergia a alho, e outros detalhes que prefiro ignorar. Assim como as Midi-chlorians de Star Wars, foi boa a intenção. Mas só a intenção.

MILLENNIUM: A GAROTA NA TEIA DE ARANHA:

O longo da história recente da literatura, dezenas de bastiões, verdadeiros representantes de nichos consolidados, foram revisitados após a morte de seus autores. Por praticidade, a literatura policial demonstrou ser o gênero mais prolífico no que tange à adaptação/continuação de sagas, séries e legados de autores. Sherlock Holmes, James Bond, Sydney Sheldon. Todos foram às prateleiras em obras de caráter duvidoso e ajudaram a botar uma grana no bolso das editoras.

Com isso em mente, era mais que natural o receio do mundo literário quando os herdeiros de Stieg Larsson anunciaram que o autor David Lagergrantz, repórter que escrevera a biografia de Ibrahimovic, daria continuidade aos personagens Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist.

Larsson, o sueco criador da trilogia Millennium, foi vítima de um infarto fulminante antes que seus livros chegassem às livrarias – portanto não teve como testemunhar o sucesso avassalador da dupla: a trilogia vendeu 80 milhões de exemplares ao redor do globo e o primeiro volume, Os homens que não amavam as mulheres, foi justamente eleito melhor romance policial dos últimos dez anos. Carregada de feminismo, tecnologia, violência e um retrato brutalista da pacata Suécia, as prosa de Larsson atingiu em cheio todo um nicho refém das mesmas técnicas batidas de sempre, que convenciam ao requentar fórmulas batidas de um gênero idoso.

A missão de Lagercrantz, adianto desde já, foi cumprida com sucesso: copiando o estilo e a construção dos livros, ele conseguiu manter vivo o espírito de Larsson e construir uma trama intrincadíssima sem cair na maioria dos clichés. Mas eu disse maioria. Como tratava-se de um livro para comemorar o aniversário de dez anos do lançamento da trilogia, nada melhor do que homenagear a matéria-prima, certo? O problema é que Lagercrantz homenageia demais, deixando algumas coisas meio que sem sentido. O retorno dos agentes da Säpo – a polícia secreta sueca –, queridinhos dos leitores, me pareceu um tanto quanto forçado, ainda que renda boas cenas de ação e humanidade, principalmente na figura de Jan Bublanski, um policial judeu desacreditado com a vida e a existência de Deus.

Mesclando vários pontos de vista, assim como na trilogia, David oferece nesse “Aquilo Que Não Mata” – título sueco, extraído de uma frase de Nietzsche – um retorno aos dois últimos livros. Não só trazendo os policiais de volta, mas também toda a mitologia de Zalachenko e o passado de Lisbeth – muito bem recriado, deixando margem para algumas interpretações –, Lagercrantz foi feliz na escolha da trama principal: um cientista em perigo acaba recorrendo a Mikael; enquanto isso, um hacker invade a rede interna da NSA, a mesma denunciada por Edward Snowden. Conforme as páginas avançam, os fatos se cruzam numa cadeia cada vez mais intrincada onde as informações vão sendo despejadas em doses homeopáticas, como num filme de suspense – assassinos, União Soviética, autistas, espionagem industrial e personagens riquíssimos: está tudo lá.

(Em alguns pontos da narrativa fica difícil crer nas soluções apresentadas pelo autor, e para o grande público, eu diria, compreender o significado de termos cibernéticos e matemáticos será uma grande batalha. Os diálogos também parecem forçados aqui e ali, mereciam uma edição mais rigorosa).

Mas vamos ao que interessa:

Lisbeth e Mikael. Se o segundo aparece amargurado e distante do homem pragmático e objetivo que sempre foi – é o único personagem para quem o tempo parece ter passado; sério, todos os outros parecem ter ficado presos em 2003 –, a hacker favorita da literatura mundial retorna em grande estilo. Aparecendo pouco, como sempre, Lisbeth é providencial – e praticamente divina – quando tem de ser. Talvez falte um pouco de agressividade e cenas das tradicionais torturas físicas e psicológicas que seus inimigos costumam sofrer, mas o leitor fiel não vai se incomodar muito com isso.

O grande problema no arco de Lisbeth é a forma como ela se conecta com toda a história: pode ser que tenha sido uma decisão arriscada demais por parte do autor, e não vou desfilar argumentos aqui para não dar o inevitável e temido spoiler, inserir certos elementos do passado de Lisbeth como motor das 465 páginas desse romance. No esforço de se manter autoral, emular Stieg Larsson e agradar os fãs, David Lagercrantz fez um verdadeiro tour de force. Errando bastante, com certeza, mas acertando em cheio na nostalgia & diversão, A Garota Na Teia De Aranha é um ótimo entretenimento e deixa margem para continuações num final um tanto quanto decepcionante. O sueco já declarou que pretende escrever mais um ou dois livros, e depois cair fora. Não quer ser Stieg Larsson para sempre. De qualquer forma, é fato que, com Lagercrantz ou não, Lisbeth e Mikael voltarão.

SINOPSE – Uma muralha virtual impenetrável: é assim que se pode definir a rede da NSA, a temida agência de segurança americana. Quando a mensagem Você foi invadido piscou na tela de Ed Needham, responsável pelos computadores que guardam alguns dos maiores segredos do mundo, ele custou a acreditar. A tentativa de localizar o criminoso também não trazia frutos, as pistas não levavam a lugar nenhum, cada indício terminava num beco sem saída. Que hacker seria capaz de algo assim?

O BONECO DE NEVE:

Tão assustador e eletrizante quanto o silêncio dos inocentes.
Considerado seu livro mais ambicioso pelo jornal inglês The Guardian e comparado a Silêncio dos Inocentes, de Thomas Harris, pelo The Times, Boneco de neve é o seu livro mais arrepiante.
No dia da primeira neve do ano, na fria cidade de Oslo, o inspetor Harry Hole se depara com um psicopata cruel, que cria suas próprias regras; O terror se espalha pela cidade, pois um boneco de neve no jardim pode ser um aviso de que haverá uma próxima vítima. No caso mais desafiador da sua carreira, Hole se envolve em uma trama complexa e mortal, com final surpreendente.
O livro que transformou Jo Nesbo no maior nome do thriller nórdico na Europa.
20 milhões de livros vendidos no mundo.


OUTSIDER:

Um crime indescritível. Uma investigação perturbadoras de Stephen King dos últimos tempos.O corpo de um menino de onze anos é encontrado abandonado. Uma das histórias mo no parque de Flint City, brutalmente assassinado. Testemunhas e impressões digitais apontam o criminoso como uma das figuras mais conhecidas da cidade — Terry Maitland, treinador da Liga Infantil de beisebol, professor de inglês, casado e pai de duas filhas. O detetive Ralph Anderson não hesita em ordenar uma prisão rápida e bastante pública, fazendo com que em pouco tempo toda a cidade saiba que o Treinador T é o principal suspeito do crime. Maitland tem um álibi, mas Anderson e o promotor público logo têm amostras de DNA para corroborar a acusação. O caso parece resolvido. Mas conforme a investigação se desenrola, a história se transforma em uma montanha-russa, cheia de tensão e suspense. Terry Maitland parece ser uma boa pessoa, mas será que isso não passa de uma máscara? A aterrorizante resposta é o que faz desta uma das histórias mais perturbadoras de Stephen King."Uma história envolvente que mexe com todos os nossos medos... Para os fãs dos livros antigos de King, como It: a Coisa."

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